APARIGRAHA - Liberte-se da ilusão de si mesmo

29/05/2012 20:07

 

 

O universo é como um grande organismo em contínuo movimento e nossas vidas nele inseridas também seguem o mesmo padrão sendo a mudança, finalmente, sua única constante. No entanto o ser humano tende a se acomodar em algumas referências com as quais ele se identifica e nas quais ele se reconhece. Desde que nascemos uma série de informações nos cercam; a família, a casa onde moramos, os amigos, os comportamentos, o trabalho, as perspectivas, as posses, nossos dons e preferências, o corpo e aparência. Sem percebermos nos apegamos a esses fatores como se eles estivessem sob o nosso controle como parte de quem somos: “meu nome é...”, “trabalho com...”, “gosto disso...”, não aceito aquilo...”, “ tenho tantos anos.... e tal aparência...”, “minha família é assim...” e etc. Mas tudo isso faz parte de um cenário  que está sujeito  a mudanças imprevistas que acontecem inevitavelmente desestabilizando essa “estrutura” e quase sempre nos abalando emocionalmente.

Vivemos acreditando que somos só feitos desse quadro apostando nossa segurança, conforto e felicidade nesse padrão de peças. Só que relacionamentos se desmancham, posses se perdem, o corpo envelhece, o trabalho muda, dentre muitos outros exemplos. E em meio  a tanta instabilidade quem sou eu?

A princípio tudo o que está sujeito à mudança não é você...

Pelo conceito yogue somos seres perfeitos, imutáveis e infinitos mas por falta de consciência sobre nós mesmos nos confundimos e nos projetamos em tudo que está e acontece fora de nós. Se não tivermos um alicerce fundamental de nosso centro e força acabamos nos “apegando” ao que constatamos como “nosso”mas que podemos perder a qualquer momento, vivendo assim de forma angustiante.

Aparigraha ou o desapego representa um de diversos caminhos para essa descoberta, uma jornada para dentro de si mesmo para desenvolver e fortalecer nossa verdadeira manifestação. Nesta auto-investigação se inicia o processo de observar os próprios pensamentos, palavras e atitudes; é a chamada atitude testemunha do yogue.

Como reagimos às circunstâncias da nossa vida? Essa é uma observação que vale a cada instante e que começa a revelar nosso padrão comportamental. Sem olhar para ele não há condições de mudança pois não existem referências para mudar.

O mais comum de acontecer é buscarmos o confortável e o agradável e ao mesmo tempo fugirmos ou resistirmos ao doloroso. Nosso ego cria esse cenário dividido entre prazer e dor, uma armadilha, já que as situações prazerosas geram um sofrimento antecipado pelo seu término e a subsequente ansiedade pela sua repetição; enquanto que as circunstâncias de dor geram medo, retração e desgaste ao se “resistir” ao acontecimento. Em nenhum dos dois casos estamos à vontade, somos escravos dos sentidos, submetidos diariamente aos intermináveis desejos dessa manifestação que é o nosso ego. Não que ele não seja necessário, precisamos de nossa personalidade para atuar no mundo, mas não que ela nos comande.

 

"Liberdade significa a capacidade de agir guiado pela alma, e não compelido por desejos e hábitos. Obedecer ao Ego leva à escravidão, obedecer à alma traz a libertação."

Paramahansa Yogananda

 

Enquanto estivermos atuando sob o domínio desse tirano sempre haverá dentro de nós a desgastante necessidade de controle. Como se quiséssemos escolher tudo o que nos acontece, definir como o outro deve ser, agir e sentir...por exemplo. No entanto nossa ânsia de manipulação é totalmente ilusória. O que podemos no máximo conduzir são as nossas intenções! E elas sim devem ser a prioridade em cada um dos nossos momentos em vida, uma eterna vigilância, chamada vairaghya, a disciplina da prática.

A partir do momento que nossa consciência passa a ser expandida com o sadhana (prática) um maior discernimento começa a permear nossas decisões e escolhas trazendo muito mais tranquilidade para nosso espírito.  

 

“Existe muito mais poder em deixar ir do que em se agarrar a algo...”

Eckhart Tolle

 

Existe uma consciência superior no homem, aquela que justamente é capaz de testemunhar nosso comportamento e nosso estado interno enquanto agimos. E essa é a chave do yoga, da libertação; percebermos que somos algo além das nossas identificações somos essa eterna testemunha que tem a capacidade de discernir as melhores escolhas através do sentir e do desenvolvimento da intuição.

 

O despego então tem chances de acontecer pois dessa posição o envolvimento emocional é puro, e é o coração quem diz se realmente precisamos daquilo. Há muita confusão quanto ao que realmente satisfaz hoje em dia pois a tecnologia amplifica a disfunção egóica nos seres humanos, mas ao reservarmos momentos de quietude para nós mesmos estamos nos proporcionando uma limpeza mental energética que purifica o acesso à nossa essência, aquilo que independe de tudo e de todos e cuja natureza busca manifestação. Basta abrirmos espaço para que essa perfeição que já somos surja e o verdadeiro Ser finalmente aja, livre.